IA na Regulação de Sinistros: Como Seguradoras Estão Cabendo no Prazo de 30 Dias do Novo Marco Legal
Por Enio Moraes
Fundador da movimento.ai

Desde 10 de dezembro de 2025, os contratos de seguro firmados no Brasil estão sob a Lei 15.040/2024 — o novo Marco Legal dos Seguros. Entre as mudan��as, uma tem efeito operacional direto: a seguradora precisa concluir a regulação e a liquidação do sinistro em 30 dias contados do aviso, prazo que só pode ser estendido, até 120 dias, em casos de complexidade comprovada e devidamente justificada.
Não é uma meta interna de qualidade. É prazo legal, com consequências contratuais e reputacionais. E ele chega a um setor cujo benchmark operacional ainda está longe disso: levantamentos internacionais de 2026 apontam uma média de 40,7 dias entre o aviso de sinistro (FNOL, na sigla em inglês) e o pagamento final.
O gargalo não é a decisão — é o caminho até ela
Quando se cronometra uma esteira de sinistros, a constatação costuma incomodar: o tempo de análise propriamente dita — o julgamento técnico sobre cobertura, valor e responsabilidade — raramente passa de algumas horas. O resto é espera.
Espera por um documento que o segurado não sabia que precisava enviar. Espera porque o aviso caiu na fila do regulador errado e levou três dias para ser redirecionado. Espera porque o laudo veio em PDF escaneado e alguém precisa transcrevê-lo antes que o sistema o entenda. Espera porque o caso ficou parado em um lote de verificação antifraude que roda toda sexta-feira.
É exatamente aí — no transporte, na classificação e na leitura da informaç��o, não no julgamento — que soluções de IA para automação de processos têm entregado ganhos mensuráveis.
Quatro pontos onde a IA encurta a esteira
1. Triagem no momento do aviso. Modelos de linguagem leem o relato do segurado (texto, áudio transcrito ou formulário), extraem os campos estruturados, classificam tipo e gravidade do sinistro e o encaminham direto para a fila certa. Seguradoras que implantaram esse fluxo relatam queda do tempo entre FNOL e triagem de 4 a 8 horas para menos de 5 minutos.
2. Leitura de documentos. Boletins de ocorrência, laudos, notas fiscais e fotos deixam de ser anexos que alguém precisa abrir um a um e passam a ser dados. O efeito colateral mais relevante não é a velocidade: é a qualidade do cadastro inicial. Erros de dados no FNOL, tipicamente entre 15% e 25% em processos manuais, caem para menos de 5%.
3. Detecção de padrões suspeitos. No Brasil, esse é hoje o uso mais visível. Em vez de amostragens periódicas, o cruzamento de dados roda em tempo real sobre cada aviso, sinalizando o que foge do padrão. Pesquisa da CNseg indica que a IA já é realidade em cerca de 80% das empresas do setor no país, puxada sobretudo pela IA generativa.
4. Processamento direto (STP) nos casos simples. Sinistros de baixo valor e alta padronização — vidros, pequenos danos residenciais — podem ir do aviso ao pagamento sem toque humano. A régua realista de mercado: sair de cerca de 5% de straight-through processing para algo entre 15% e 25% dos casos elegíveis em 18 meses. Não é "tudo automático". É tirar da fila o que nunca precisou dela.
Os números — e a parte que raramente entra no slide
O caso mais documentado é o da britânica Aviva, que declara operar mais de 80 modelos de IA na área de sinistros. Segundo a companhia, a avaliação de responsabilidade em casos complexos encurtou em 23 dias, a precisão de roteamento subiu 30%, as reclamações de clientes caíram 65% e a economia em sinistros de automóvel passou de £60 milhões em um único ano.
Vale, porém, ler o outro lado do balan��o. A McKinsey aponta que seguradoras líderes em adoção de IA entregam retorno ao acionista cerca de seis vezes maior que o das retardatárias — mas, para 84% das companhias, o ganho de receita diretamente atribuível à IA não passa de 1%. Traduzindo para a linguagem do conselho: o retorno aparece primeiro em custo, ciclo e experiência do cliente — não em receita nova. Quem vende o projeto como alavanca de faturamento perde credibilidade no segundo trimestre.
O que a Lei 15.040 cobra da sua governança
Há uma ironia útil aqui: a mesma lei que aperta o prazo também aperta o dever de transparência. A recusa de cobertura precisa ser fundamentada e comunicada com clareza, e o segurado tem direito de conhecer os elementos que embasaram a decisão. Isso é incompatível com um modelo que devolve um escore sem explicação.
Três exigências práticas decorrem disso:
- Rastreabilidade por sinistro. Cada decisão automatizada precisa registrar qual modelo, qual versão, quais dados e quais regras a produziram — em formato auditável por reguladores e pelo Judiciário.
- Humano obrigatório na negativa. Automatize aprovação e encaminhamento; mantenha decisão humana revisada em recusas, sinistros de alto valor e casos com indício de fraude. Recusa automatizada sem revisão é passivo jurídico, não eficiência.
- Monitoramento de viés e de deriva. Modelos treinados em histórico de sinistros herdam o histórico. Medir taxa de negativa por perfil, região e canal deixou de ser exercício de ESG e virou controle de risco regulatório — inclusive sob a LGPD, que assegura ao titular o direito de revis��o de decisões automatizadas.
A leitura executiva é simples: o prazo de 30 dias transformou a automação da esteira de sinistros em questão de conformidade, não de eficiência. Mas a mesma automação que faz caber no prazo é a que precisa explicar, depois, por que decidiu o que decidiu. Quem implanta só a primeira metade ganha velocidade agora e a devolve em litígio depois. Estruturar essa rastreabilidade desde o desenho da esteira é o tipo de trabalho que endereçamos em projetos de consultoria em governança de IA para o setor de seguros.
